Opinião Transporte Seguro: O fim do motorista-empreendedor e o novo mercado de transporte

Memória fotográfica dos tempos em que o transporte rodoviário de cargas era, verdadeiramente, uma aventura. Imagem retirada do blog "Amo Caminhões" (www.amocaminhoes.com).

O mercado de transporte rodoviário de cargas tem passado por uma violenta transformação ao longo da última década. Todos nós, pessoas envolvidas com o universo do TRC, estamos assistindo, de forma privilegiada, ao fim de uma era. De forma mais objetiva: o período “romântico” do transporte chegou ao fim. Para que tal transformação fique mais clara ao nosso leitor, vamos caracterizar o que chega ao fim e o que está começando.

A era romântica do transporte rodoviário de cargas

Podemos dizer que até o final da década de 1990 o mercado de transporte se estruturou em torno da figura do “caminhoneiro de sucesso”. Um motorista, com seu caminhão, realizava algumas viagens entre cidades próximas, conseguia alguns fretes mais lucrativos, outros menos… Com o passar do tempo, poderia contratar um ajudante, trocar os bancos do caminhão, realizar acordos com comerciantes locais para realização de rotas fixas, etc. Conseguindo sucesso em sua empreitada, poderia passar a um segundo caminhão e contratar um motorista para ajudá-lo – ou promover seu ajudante. Estamos falando da era do Mercedes-Benz 1113, um caminhão que fazia de tudo e que poderia ser encontrado em qualquer esquina de grande cidade ou nos confins da Rodovia Transamazônica.

Com um mínimo de organização, espírito previdente e poupança, esse caminhoneiro poderia organizar uma pequena frota, depois uma frota um pouco maior e, em casos de maior sucesso, um pátio cheio de caminhões e algumas (ou muitas) filiais pelo Brasil afora. Nos escritórios dessas empresas, encontraríamos quase todos os parentes do transportador: desde a esposa e os filhos até os primos mais distantes. Muitas vezes, pessoas de pouca instrução tentando domar processos de gestão que fugiam ao seu entendimento e controle. Uma época de muitos papéis e carimbos – o auge da modernidade, presença raríssima em qualquer escritório, era a máquina de escrever elétrica.

Por um lado, havia o valor romântico do caminhoneiro que conseguiu construir um grande negócio, com todas as limitações possíveis, a partir do próprio esforço. De outro, o amadorismo da administração e uma orientação absolutamente intuitiva aos negócios.

A nova realidade: menos folclore e mais gestão profissional

A figura do caminhoneiro-empreendedor começou a dar sinais de esgotamento a partir de uma série de transformações que afetaram a economia brasileira e o mundo. Vejamos algumas:

  • A informatização/automação dos processos de gestão. Os papéis empoeirados e o acordo de “fio de bigode” deram lugar aos sistemas de gestão, ao controle rígido de estoques, ao acompanhamento das entregas de cargas na tela fria do computador;
  • O Brasil mudou. Saiu de cena a ciranda financeira da inflação. Muitas empresas que lucravam com a desorganização econômica do país foram obrigadas a rever seus negócios. A especulação – que ainda é grande – perdeu espaço, a competição aumentou e as margens de lucro diminuíram consideravelmente;
  • A empresa-mãe, que abarcava todos os processos produtivos em seu interior, foi dizimada pela terceirização. Do RH aos refeitórios, passando pela manutenção dos caminhões, quase tudo pode ser terceirizado em uma transportadora;
  •  As portas largas da sonegação de impostos foram progressivamente fechadas. A fiscalização sobre as empresas cresceu e, ao que tudo indica, vai se tornar cada vez mais rígida;
  • A competição no mercado de transporte aumentou sensivelmente. As ferrovias, por exemplo, ressurgiram das cinzas e passaram a disputar certos tipos de cargas com o modal rodoviário. Além disso, com a redução das margens de lucros das empresas, a disputa por clientes tornou-se acirrada. Serviços diferenciados, frota nova, segurança, pontualidade… O que antes era opcional passou a ser item fundamental para sobrevivência de qualquer transportadora.

Onde foi parar o “transportador romântico”, em meio a tantas transformações? Que fim levou o motorista-empreendedor? Muitas vezes, ele aparece somente no site da empresa, naquele espaço em que se relata o histórico de constituição da transportadora – sempre com o mesmo texto: “em 1950, graças à arrojada iniciativa do senhor fulano de tal, foi fundada a Expresso ‘X’”. Em outros, continua à frente de seu negócio. Caso tenha profissionalizado minimamente a gestão, pode estar em situação relativamente confortável. Nas situações em que ainda é assessorado apenas por familiares e amigos sem formação adequada para tal, pode estar em grandes dificuldades.

Quais conclusões podemos tirar dessa transformação no universo do Transporte Rodoviário de Cargas?

De tudo que foi exposto, a conclusão mais importante reside no fato de que o motorista-empreendedor deixou de ser o personagem principal do transporte. Seu lugar foi tomado pelos conselhos de administração, por diretores profissionais, pelas pesquisas de mercado, pelas decisões cuidadosamente planejadas e pela valorização da informação e dos ganhos de produtividade. O folclore deixou de alimentar a fama de uma empresa e seu lugar foi tomado, de forma violenta, pelos balanços administrativos e os certificados de qualidade.

O empreendedor pouco preparado cada vez mais é empurrado aos rincões mais distantes do país. Ainda é responsável pela capilaridade de nossas redes de transporte – afinal, as gigantes do setor ainda não demonstram grande apetite pelo atendimento aos vilarejos mais remotos do Piauí ou às localidades extremas de Roraima. Caso as gigantes nunca cheguem até lá, os pequenos que já atuam em tais localidades, reproduzindo a competição de maior escala, também serão obrigados a rever seus métodos de gestão e buscar uma atuação mais profissional.

Ao que parece, o capitalismo frio, pautado por resultados, chegou aos nossos caminhões e estradas. Melhor para nossa economia, para os clientes do transporte e para todos os integrantes do mercado que buscam uma atuação profissional. Pior para todos os empresários que não acompanharem tais mudanças. Eles estão com os dias contados. E suas histórias de aventuras, infelizmente, também.

Sai de cena o motorista-empreendedor e, em seu lugar, fica o empresário dos transportes. Imagem retirada do blog "Amo Caminhões" (www.amocaminhoes.com).

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A elaboração deste texto contou com a colaboração dos consultores da VIAMGES Administradora e Corretora de Seguros. Qualquer dúvida ou necessidade quanto a seguros na área de transporte, favor entrar em contato através do endereço de e-mail viamges@viamges.com.br ou do telefone (31) 3484-0416.

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